As folias tradicionais de terras do Zêzere e da Raia celebram-se pela noite de Sábado de Aleluia. Cerca da meia-noite, os rapazes, devidamente organizados, dirigem-se a casa da Mordoma de Nossa Senhora para pedir alvíssaras:
Dai-me alvíssaras, Senhora;
deitai-me no meu chapéu,
que o vosso amado Filho
já subiu da terra ao Céu.
E a mordoma oferece doces e vinho, segundo o antigo costume.
Pinharanda Gomes escreve com entusiasmo sobre esta bonita tradição, semelhante às festas dos rapazes em Trás-os-Montes:
Nalgumas terras, a “folia” sai todos os domingos, ou todas as festas, até ao Pentecostes. Noutras, só volta a sair em Domingo do Espírito Santo, agora em solene apresentação, com suas alabardas.
As alabardas integram duas bandeiras encarnadas – do Espírito Santo – e um império, ou vara do Espírito Santo, cujo topo segura a coroa ornada com botões de rosa, manjerico e rosmaninho.
A “folia”, com suas bandeiras, e tamboriqueiro, dá volta ao povo. Outrora, entrava na igreja e participava na missa de Pentecostes. Depois, passou a ter a única possibilidade de se integrar na procissão do Espírito Santo, procissão essa que abriu, mas sem toque de tambor. Depois da festa litúrgica, o cortejo, com seus descantes, em louvor do Divino:
Divino Espírito Santo,
Que morais nessa lameira,
Deitai a pombinha fora,
Que vá beber à ribeira.
A “folia” prossegue pelo povo. Nos largos principais alabarda-se. É o jogo das bandeiras em que os moços, um por um, medem forças, jogando as bandeiras ao ar em tomo do corpo, segurando o pendão só com uma das mãos, a ver quem consegue alabardar mais tempo e mais alto. Vence quem vence. E, quem vence, retém direito a nova rodada e à admiração das moças que, obviamente, nos largos, nos seus largos, esperam os confrades da “folia” ou da “froria”, como se diz em Nisa e em Montalvão.Festa de alegria – folia – imitando o mistério medieval, em que se celebrava a descida do Espírito, em que os apóstolos “pareciam bêbados”.1
Os rapazes e a vertigem. O vinho e os olhos que se desejam, através do jogo. A festa.
Notas
- ASSOCIAÇÃO DOS JOGOS TRADICIONAIS DA GUARDA; PINHARANDA GOMES – Jigajoga: boletim informativo da IV festa internacional dos jogos. (1990). ↩︎






