Foi uma das mais belas jornadas de cultura tradicional a que assistimos este ano. O povo estava ali, naquela aldeia do concelho de Boticas, num dia chuvoso, com um estradão lamacento onde os carros tinham dificuldade em passar. O povo de Dornelas (Vila Grande), o das redondezas e pessoas idas de longe, atraídas pela beleza de já tão famoso costume popular. O dia 20 de Janeiro era um dia grande e afiançava muita gente que, à hora da Mezinha, deixaria de chover, pois há séculos que assim sucedia.
Logo de manhã, no pátio da casa do mordomo da festa, havia azáfama. Grandes panelas de água a uma enorme fogueira. Eram para o arroz. Noutras panelas cozia-se a carne de porco. Em loja próxima, um exército de broas. Gente chegava e ia provando o petisco – gente de longe, porque a da terra aguardava religiosamente a hora da Mezinha.
Foi uma maravilha. Depois da missa, lá veio o povo para junto de uma mesa que se estendia pelas ruas numa extensão de mais trezentos metros. Pão, arroz e carne de porco. O arroz e a carne em tijelas de madeira, algumas das quais têm mais de duzentos anos – assim no-lo garantiram. E vinho? Quem o quisesse beber que o trouxesse ou fosse comprar a uma taberna. Assim mesmo! Admirámos a alegria e o respeito dos comensais. A grande mesa, feita de muitas mesas seguidas, estava coberta com toalhas de linho. Linho puro. A certa altura tivemos necessidade de passar de um lado para o outro.
– Não salte – disse um rapazinho. – Só se pode passar depois de tirar a toalha. Se saltasse agora, podia queimar as pernas.
E não saltámos, tendo de dar uma grande volta para chegar ao lugar desejado.
O etnógrafo Lourenço Fontes foi um grande animador da festa deste ano organizando, com o CCRVR, o I Encontro Luso-Galaico de Religiosidade Popular. Foram muitas e variadas as comunicações que fizeram luz sobre o fundo popular de muitas manifestações religiosas.
Nesta breve nota resta acrescentar que se cumpriu mais uma tradição: não choveu durante a Mezinha, apesar de ter chovido toda a manhã e depois da Mezinha ter terminado. Não há dúvida que S. Sebastião, o santo protector contra a fome, a peste e a guerra, meteu uma cunha a S. Pedro. Duzentos quilos de carne de porco, duzentas e cinquenta broas e cinquenta quilos de arroz foi o total da medicina caseira (medicinam [latim] – medicina – meezinha – mezinha, eis a evolução fonética da palavra). O mordomo da festa deste ano foi o senhor António Joaquim Seixas por intermédio de quem saudamos todo o povo de Couto de Dornelas.
Ouvimo-la, enquanto manducávamos um saboroso traço de orelheira. Há anos, um homem não quis vir à Mezinha. Lá tinha que fazer, fosse o que fosse. A partir, daí o gado começou-lhe a adoecer: magricela, lazarado. Só se recompôs no ano seguinte, quando o dono, melhor avisado, resolveu dar satisfação ao santo e regressar à Mezinha de S. Sebastião.
Em Samão e Gondiães, perto de Domelas, já no Minho, realiza-se idêntica refeição comunitária, mas no lugar de arroz usam-se papas de milho. (ln Nordeste Cultural, n.º 25 – 25 de Abril de 1984).
Nota – No dia 20 de Janeiro, há no nosso país, de norte a sul, diferentes modos de comemorar o dia de S. Sebastião. Ver os textos do autor: Feira dos Namorados em Vila do Conde e Festa das Fogaceiras.


