Tia Micaela

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Roda de crianças. Diz uma:

— Ai!

Pergunta a seguinte:

— Que foi?
— Morreu a tia Micaela, diz a primeira.
— E como foi? — pergunta a segunda.

A primeira faz um gesto a propósito e responde:

— Assim, assim, assim.

É agora à segunda que compete iniciar o diálogo e o mimo com a terceira da roda; depois, a esta, até participarem todas as crian­ças. Fechado o círculo, a primeira a falar emprega novo gesto e, assim, sucessivamente, até as crianças decidirem parar.

Como se vê, as crianças desenvolvem uma actividade simbó­lica, própria do período etário entre os dois e os sete anos, embora o simbolismo persista no jogo de todas as idades. A criança tem necessidade de imitar o adulto, imita-o por natureza e deleita-se com essa imitação, repetindo gestos, cuja expressão acentua, modifica e transfigura, entrando nos domínios do fan­tástico. A imitação combina-se com a exploração formal.

Neste jogo, as crianças entregam-se à imitação das pessoas que falam da morte de alguém e transformam a dor em prazer: o prazer lúdico.