O carácter lúdico da Festa e Procissão das Fogaceiras, em honra de S. Sebastião, prende-se à evocação mítica em que a luta entre o bem e o mal, representados respectivamente pelo santo e pela peste, terminou com a vitória daquele. Do prémio fazem parte as saborosas fogaças. Uma vez contratado, o prémio torna-se devido, como nas tradições míticas, de contrário uma das forças em competição, o santo neste caso, abandona a tarefa e o adversário triunfa. Repare-se ainda no simbolismo da fogaça, depois de abençoada: alimento para o corpo e para o espírito.
“Têm história e tradição as procissões em Portugal e de um modo particular na Vila da Feira, hoje cidade de Santa Maria da Feira, circunscrição administrativa a que já pertenceu César.
Vem lá do século XVI a Festa das Fogaceiras, que em Janeiro de cada ano aí se realiza em honra do mártir S. Sebastião e que teve origem na evocação do Santo para aplacar uma dessas pestes da Idade Média.
Debelado o mal, o povo das terras de Santa Maria sentiu-se devedor e, como testemunho de gratidão, fez voto colectivo de festejar anualmente o mártir. Nesse voto inclui o oferecimento de boroas de pão doce (as fogaças), que, depois de abençoadas, eram enviadas para toda a região.
Com o andar dos tempos, a devoção esmoreceu e o voto não se cumpriu desde 1749 a 1753. A tradição diz que a peste voltou.
O povo da região viu nisso um castigo e, apavorado, suplicou que se reatassem as festividades em cumprimento da promessa. Desde então jamais se deixaram de realizar.
Nelas tomam parte todos os regedores do concelho e respectivos “cabos de ordem”, de arma ao ombro com uma flor enfiada no cano.
Ora, como César pertencia ao concelho da Feira, também se fazia representar nessas procissões.
Com a criação do concelho de Oliveira de Azeméis, em 1799, a nossa terra deixaria de se representar nas festas da Vila da Feira e passaria a festejar o mártir em César. E, ao que nos consta, sempre se têm realizado aqui, com mais ou menos pompa, até aos nossos dias.”
Notas
OLIVEIRA, Américo – A voz de Azeméis. (30 Jun. 1995). Ver o texto mais desenvolvido do autor sobre a Festa das Fogaceiras.
