Forma-se uma roda de meninas e meninos. Uma menina no meio, que dança em sentido contrário, e à qual no decorrer da dança se vão juntando outros elementos da roda, passando assim a haver duas rodas, uma exterior e outra interior. Todos cantam:
Olha a borboleta
que se atira ao ar.
A menina Júlia
(ou outro nome, o da criança do meio)
não se quer casar.
Não se quer casar,
quer morrer donzela.
Quer ir prà cova,
bendita capela.
Bendita capela
vestidinha à comunhão.
A menina Alice
(ou outro nome, o de uma menina que vai dar a mão à do meio)
vai-lhe dar a mão.
Vai-lhe dar a mão,
vai ser sua dama.
A menina Carla (ou outra)
vai fazer a cama.
Vai fazer a cama,
faça-a bem feitinha.
A menina Lídia (ou outra)
vai ser a madrinha.
Vai ser a madrinha
que leva o raminho.
O menino Pedro (ou outro)
vai ser o padrinho.
Vai ser o padrinho,
que leva a bandeira.
A menina Rita (ou outra)
vai ser cozinheira.
Vai ser cozinheira,
faça um bom jantar.
Ora viva os noivos
que se vão casar.


As fronteiras entre o jogo e o teatro esbatem-se. E isso nota-se bem no jogo infantil, onde toda a arte acaba por ter a sua origem. Para usar uma perspectiva psicanalítica, a arte concilia os princípios de prazer e de realidade, tal como o jogo, embora neste a fantasia sobrepuje mais nitidamente a ligação à realidade. O jogo que acaba de ser exposto combina-se ainda com mais duas artes particulares: a música e a dança – o que mostra até que ponto o estudo do jogo infantil é importante para o conhecimento não só da arte mas da realidade humana em geral.
Neste jogo do Olha a Borboleta pode estranhar-se que na terceira quadra seja uma menina a dar a mão a outra menina. A explicação é simples: dantes as escolas primárias eram masculinas ou femininas e eram as meninas que mais praticavam este jogo, como ainda hoje. Nuns lugares, é a criança do meio que indica as que vão juntar-se-lhe: noutros, é uma da roda, o que é aceite pelas outras.