O uso corrente da língua toma o provérbio como sinónimo de ditado popular, adágio, anexim e rifão. Alguns linguistas têm feito a distinção dos termos, valendo aqui a pena observar que o anexim apresenta geralmente forma rimada e carácter moralizante (ex.: “quem o alheio veste / na praça o despe”) e o adágio, voltado também para a prática, é marcado por uma intenção espirituosa (exs.: “vozes de burro não chegam ao céu” e “nariz de homem, cu de mulher e focinho de cão / não conhecem verão”). Ficam o provérbio, o rifão e o ditado como equivalentes; constituem, nas suas linhas gerais, uma observação fina e cintilante do viver, apoiada na experiência, sem ter necessariamente cunho apelativo.
Tomemos, entretanto, o provérbio como designação geral dos significados anteriores. Se classificarmos os jogos de físicos, mentais e artísticos, ele encaixa-se bem entre os segundos, pelo que revela de graciosidade e de aposta nos caminhos certos da vida, tendo ainda em consideração a sua índole frequentemente alegórica, polissémica, a qual lhe permite uma vasta aplicação. Uma forma brilhante do filosofar espontâneo.
Para efeito de estudar o jogo nos provérbios e estes como jogo, o autor escolheu um livro de António Borges de Castro1 que contém nada menos do que “3020 provérbios e adágios”. Pensou inicialmente que uma dúzia deles estaria em condições de corresponder ao objectivo e, quando se apercebeu, teve mesmo de fazer selecção, tal a quantidade de provérbios que, directa ou indirectamente, se relaciona com o jogo. Vejamos:
– A candeia que vai à frente é a que alumia melhor.
– A gastador nunca faltou que gastar nem a jogador que jogar.
– A ganhar se perde e a perder se ganha.
– A primeira pancada é a que mata a cobra.
– A roda da fortuna tanto anda como desanda.
– A sebe dura três anos, o cão três sebes, o cavalo três cães, o homem três cavalos, o corvo três homens e o elefante três corvos.
– A raposa tem sete manhas e a mulher tem manha de sete raposas.
– A união faz a força.
– Adivinhar é proibido.
– Adversário quieto, inimigo dobrado.
– Aí é que a porca torce o rabo.
– Amigos, amigos, negócios à parte.
– As coisas não são como nós as vemos.
– Até ao lavar dos cestos é vindima.
– Bela, boa, rica e casta é mulher de quatro andares.
– Boi bravo que chega na terra alheia faz-se manso.
– Bolsa de jogador não tem fecho.
– Brigam as comadres, descobrem-se as verdades.
– Cavalo bom não quer espora.
– Chegar, ver e vencer.
– Chegar a brasa à sua sardinha.
– Com arte e engano vivo metade do ano e com engano e arte, a outra parte.
– Com teu amo não jogues as pêras, porque ele come as maduras e deixa-te as verdes.
– Confiar no futuro, mas pôr a casa no seguro.
– Contra a força não há resistência.
– Contra a má sorte, coração forte.
– Corrida de cavalo, parada de sendeiro.
– Cria fama e deita-te na cama.
– Dar tempo ao tempo.
– Detrás da cruz está o diabo.
– Devagar se vai ao longe.
– Faz pé atrás, que melhor saltarás.
– Feliz ao jogo, infeliz aos amores.
– Fia-te em santo e não corras.
– Ganha fama e deita-te a dormir.
– Jogo e bebida, casa perdida.
– Não se caçam lebres tocando tambor.
– Néscio é quem cuida que os outros são burros.
– No jogo e na mesa a educação se conhece.
– Nunca bom ganhador é pródigo gastador.
– O amor e o menino começam a brincar e acabam a chorar.
– O espectador vê melhor que o jogador.
– O mundo é uma bola, tanto anda como desanda.
– O que tem de ser tem muita força.
– O segredo é a alma do negócio.
– Peito forte zomba da má sorte.
– Pela boca morre o peixe.
– Pelos maus perdem os bons.
– Perdido por cem, perdido por mil.
– Presunção e água benta… cada um toma a que quer.
– Quando o rio não faz ruído ou não leva água ou vai crescido.
– Quanto mais depressa, mais devagar.
– Quem com ferros mata com ferros morre.
– Quem desdenha quer comprar.
– Quem corre por gosto não cansa.
– Quem gasta mais do que tem a pedir vem.
– Quem mal lavra pouco ceifa.
– Quem muito quer tudo perde.
– Quem não arrisca não petisca.
– Quem não pode trapaceia.
– Quem o inimigo poupa nas mãos lhe morre.
– Quem quer festa sua-lhe a testa.
– Quem com resignação sofreu venceu.
– Quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão?
– Quem tem cinco trunfos e não trunfa perde o jogo.
– Quem vai à guerra dá ou leva.
– Querer é poder.
– Quem vê caras não vê corações.
– Ri melhor quem ri por último.
– Sabe muito a raposa, mas quem a apanha sabe mais.
– Se olhares para trás, não chegarás.
– Ter garras não é o mesmo que ser leão.
– Toda a medalha tem seu reverso.
– Todo o mundo quer justiça, mas não em sua casa.
– Um por todos e todos por um.
– Uma má ovelha deita o rebanho a perder.
– Uma maçã podre apodrece um cento.
– Usa e serás mestre.
– Vem mais apressado o perigo desprezado.
Alguns destes provérbios têm variantes. Outros combinam-se com crenças, como por exemplo: “Detrás da cruz está o diabo”; “Em cada pia de baptismo há sete bruxas e um bruxo.” Crenças como esta são tidas por superstição, mas outras pressupõem uma fé respeitosa. Sirva de exemplo: “Jogar o pião na Quaresma é picar o corpo de Cristo.”
Notas
- CASTRO, António Borges de – Rumo certo. Porto : [s.n.], 1977. ↩︎