Em Sobrado (Valongo) persiste a secular tradição da Bugiada, uma das tradições mais curiosas e espectaculares de todo o Entre Douro e Minho. Marcadamente lúdica, como vamos ver neste resumo.
É, de certa forma, intrigante a história da palavra Bugiada. Liga-se a macaco, o bugio, conhecido pelos seus salto cabriolas, ou a bugia, vela de cera, cujo nome vem de Bougie, cidade da Argélia, onde antigamente se produzia muita cera? Qualquer das hipóteses merece atenção: no decorrer da festa, os bugios (cristãos) executam danças e cabriolas e há também um momento em que o Sapateiro unta uma palha com excremento de burro, fingindo que trabalha com um fio revestido de cera para coser as solas. Pode acontecer que a palavra bugio seja uma alcunha com que os mouros designavam o cristãos.
A festa inclui elementos bélicos (luta entre Bugios e Mourisqueiros), rurais (a sementeira e a lavra da terra, um rito de passagem da Primavera para o Verão), sociais (cobrança de direitos e a Dança do Cego) e religiosos (a Bugiada realiza-se no dia de S. João, sobre cuja imagem existe a lenda de um rapto). Apresentamos seguidamente alguns dados.1
1. A Cobrança dos Direitos
Pelas 15 ou 15.30 da tarde, vem pelo passal abaixo um grupo de Bugios, um deles a cavalo mas virado para trás, e os outros à volta do burro. Quando os tendeiros os avistam, de imediato se preparam para estar na melhor das disposições possíveis. É que os Bugios vêm “cobrar os dreitos” (direitos) de tenda em tenda. O que vem montado traz na mão um grosso livro velho e um pau a fazer de pena: e, molhando-o no tinteiro (que, na ocasião, é nada mais nada menos que o cu do burro), simula um gesto de descarregar os direitos.
2. Sementeira e Lavra
Pelas 16 ou 16.30 aparece um grupo de camponeses mascarados e miseravelmente vestidos. No meio deles vem um outro montado num burro. Um grupo de Bugios vai à frente a abrir caminho. O que está montado, à passagem, vai lançando para o ar e para a praça a semente, que outrora era baganha de linho, a imitar o milho – o produto mais cultivado na freguesia –, e hoje é cinza ou serrim de madeira. A fechar o cortejo, vão mais Bugios a correr e a saltar.
O mesmo cortejo, que entretanto havia dado a volta ao passal, aparece de novo. Traz uma grade atrelada ao burro, quatro tábuas ligadas por duas travessas e uma eiveca onde agarra um dos camponeses. A servir de arado vai um pau alongado, com uma folha de zinco pregada na ponta, agarrando um camponês na outra extremidade. Há correrias e algazarra dos assistentes e os camponeses, irados, rasgam as vestes, chegando frequentemente ao fim do ritual de tronco nu. É curioso o facto de as operações se darem por inversão, já que a ordem natural dos trabalhos agrícolas é a inversa. Daí o dito: os do Sobrado fazem as coisas ao contrário.
3. Dança do Cego
O Cego é o comandante dos Bugios, mas, a partir das 17 horas ou 17.30, em frente ao largo da igreja, passa por aquelas de que os cães não gostam: é o ritual iniciático. O Sapateiro, que tem ao lado a respectiva mulher e um moço, está no seu serviço quando o Cego aparece inopinadamente, tropeça nele e cai num charco. O Sapateiro, irritado, castiga-o com uma vara. Mas, simulando dar no Cego, dá na lama, porque o que pretende é sujar a assistência. O Cego queda-se meio morto e o seu moço rapta a mulher do Sapateiro, procurando-a este, desaustinadamente. “Foi por ali!” – grita a assistência, brincando com ele.
Na última das representações, a mulher está a fiar e o marido a trabalhar, junto a uma fogueira com latas velhas. A mulher vê aproximar-se o Cego, avisa o marido e fogem os dois. O Cego, sem querer, tropeça nas latas e desata a correr. São os Bugios que, a fechar o cortejo, lançam as latas quentes sobre a multidão.
3. Guerra Entre Bugios e Mourisqueiros
O Velho, de aspecto patriarcal e sereno, agora de máscara, que o momento é solene, escolhe uma dúzia dos seus mais valorosos guerreiros e sobe para o castelo situado junto à estrada nacional. Os Bugios (também mascarados e com trajes garridos e diferentes) escolhidos postam-se no castelo, empunhando armas de fogo, poderosos canhões de carregar pela boca (a maior parte deles construídos para essa ocasião).
De igual modo, ao toque da caixa e sob o comando do Remoeiro, os mais destemidos mouriscos sobem para o outro castelo. Da inimizade passa-se à guerra aberta.
Tentando resolver a questão a bem, os respectivos chefes enviam “embaixadas” um ao outro, enquanto nos castelos os guerreiros de ambos os lados fazem fogo cerrado. O poder das forças mede-se pelo maior impacto dos tiros de um e de outro lado.
Como os parlamentários não chegam a acordo, os Mourisqueiros assaltam o castelo dos Bugios e vencem-nos, prendendo o Velho que levam cativo.
Quando a tropa mourisca já ia bastante afastada e confiante na vitória, uma enorme e terrífica Serpe aparece-lhes pela frente, trazida pelos Bugios, pondo-os estarrecidos de pavor e numa desorientação geral. É então que, aproveitando o momento, o Velho desata numa correria em direcção aos Bugios. Estes celebram a vitória.
Os Mourisqueiros, como se nada tivesse acontecido, juntam-se ao pé do adro e dançam em honra de S. João, uma verdadeira manifestação de arte, ritmo e cor. Estoiram foguetes. É o fim da Bugiada.
- Os dados são do livro Bugios e Mourisqueiros, de MANUEL PINTO, uma edição da Associação para a Defesa Natural e Cultural do Concelho de Valongo, 1983. ↩︎