Jogo dramático. Personagens: mãe, pai e cabritinhos. Estes sentam-se em fila no colo uns dos outros, a começar pelo da mãe. Depois de os contar, o pai vai dar um passeio e no regresso dá pela falta de um, que entretanto se escondeu:
— Dónde vai o cabritiño? — pergunta à mãe.
— Foi tapar un portelo — responde ela.
— Pois como se trice xa verás — ameaça o pai, que retoma o passeio, durante o qual lhe falta outro cabrito, continuando a faltar um em cada passeio que dá, estabelecendo-se o seguinte diálogo em que as respostas da mãe são provocadas pela mesma pergunta:
— Dónde vai o cabritiño?
— Foille coller ás vacas.
— Pois como se manque xa verás.
— Foi cortar leña.
— Pois como se corte xa verás.
— Estalle botando a fariña ó caldo.
— Pois como se queime xa verás.
— Está collendo as patacas.
Etc., até não restar cabrito nenhum.
Ao ver-se sozinha, a mãe põe-se a berrar e foge; e o pai persegue-a com gestos de a querer castigar, mas os cabritinhos, mée, mée, acodem logo e vão no encalço dela. Quando a apanham, reinicia-se o jogo.
NOTA
O Cabritiño é um bonito e expressivo jogo infantil, caracteristicamente simbólico e apropriado para crianças entre os cinco e os oito anos. Dele e do anterior tomámos conhecimento durante uma acção cultural realizada na Galiza.
Pensamos que a aproximação entre a Galiza e Portugal (pelo menos o norte de Portugal) beneficia as comunidades de um e do outro lado do Gerês. Mas uma aproximação que os governos apoiem, sem qualquer espécie de dirigismo e muito menos de objectivos político-partidários, os quais só serviriam para adulterar o verdadeiro sentido da aproximação.
Acções comuns têm levado à reflexão cultural e psicopedagógica, com relevo para o estudo de processos que promovam uma melhoria da aprendizagem infantil. Ora, o Fris e o Cabritiño, tal como em Portugal a Péla e o Galo, na justa medida em que polarizam eloquentemente a actividade lúdica da criança, proporcionam esse estudo. Os jogos de movimento e competição pronunciada, como o Fris e a Péla, e os de representação, mais declaradamente simbólicos, como o Cabritiño e o Galo, constituem os extremos entre os quais, e participando deles em graus diferentes, se movem os outros jogos. Na outra amostragem pudemos dizer que quase todos os jogos são mais competitivos do que representativos ou simbólicos. Só na Trompa (pela busca de um belo efeito, semelhante ao de tudo o que gira serenamente) e no Fulaniño que me matam (pela generosidade e abnegação do fulaniño) predomina mais o simbolismo do que a competição. Claro que onde há uma dificuldade lúdica a vencer já há competição e assim o Cabritiño e o Galo têm alguns aspectos competitivos; contudo, em proporção menor do que a Billarda, o Corno, Azurriaga la Melondra e Fris.
Vamos alegorizar este processo, através da Tracção à Corda:
A competição (agon, em grego) e a representação (imitação: mimésis, em grego) são duas forças poderosas que animam o mundo da criança e estão sempre em luta uma com a outra, numa permanente tensão, sem que parem alguma vez, sem um desfecho, sem a vitória de uma ou da outra, a não ser em casos patológicos. Percebe-se que, quando a competição se mostra mais alentada, o jogo se torne mais competitivo sucedendo o contrário no que diz respeito à representação.
O que é preciso saber é o que condiciona e estimula uma e outra forças e nós temos boa razão para supor que são o Thanatos e o Eros os responsáveis, uma vez desencadeado o impulso lúdico. A fenomenologia é a seguinte: quando o impulso lúdico (constitucional, primário) funciona, são imediatamente deflagradas as forças de competição e de representação (adquiridas, secundárias) que inevitavelmente se associam aos instintos de vida (Eros) e de destruição (Thanatos). Daí que só uma pedagogia (terapêutica, quando necessário), com os bem assentes na terra, isto é, numa análise psicológica e antropológica, seja capaz de proporcionar a orientação inteligente e sensata da criança.
Conta-nos Anna Freud que, depois da Segunda Grande Guerra, as crianças das escolas eram muito agressivas nos países devastados. Brincavam a partir e a danificar o material escolar. Porquê? — pergunta-se. Instalava-se nelas o espírito competitivo em grau elevado. Era o Thanatos que a experiência do sangue, da morte e da destruição desenvolvera. Mas atenção: isto não significa que o sentido da competição deva ser erradicado da actividade infantil, o que aliás não seria psicologicamente possível numa criança normal. A competição marcará, com mais ou menos intensidade, a sua vida futura e é por isso que deve ter-se na sua devida conta. Orientar, sim; desnaturar ou tentar desnaturar, nunca.