Como no Espeto, usam-se ferros afiados numa das pontas.
Faz-se um risco no chão, atrás do qual se colocam os jogadores. Sem pisar o risco, cada jogador espeta o seu ferrinho do outro lado, o mais longe possível. Pode combinar-se um determinado número de jogos, ao fim dos quais se declara vencedor quem mais vezes espetou o ferro mais longe.
A sedução das distâncias anima as crianças, a partir dos sete anos. É vulgar, por exemplo, encontrá-las a atirar pedras, só com a finalidade de saberem quem dentre elas consegue chegar mais longe. Por volta dos nove anos, tal sedução alia-se a um certo espírito de aventura. Sobretudo os rapazes, agrupam-se e fazem explorações em casas abandonadas, moinhos, velhas minas, etc., longe das suas moradas.
Um outro jogo parecido com o Ferrinho consiste em urinar para longe. “A ver quem mija mais longe”, “a ver quem chega até ali” — ouve-se por vezes dizer a uma criança, junto de outras, numa varanda ou até na rua.
Mais do que a competição é a atracção pelo que está fora do alcance ou assim se julga. É a busca do impossível ou simplesmente a ânsia de ir cada vez mais longe — inquietação que nas crianças tem uma explicação diferente da ambição dos adultos, já que ela condiciona naturalmente a génese de cada estrutura psíquica, ao longo do processo de desenvolvimento. Não fora essa inquietação — o aspecto afectivo mais dinâmico do impulso lúdico —, e o desenvolvimento sofreria graves distúrbios.
Dizia Santo Agostinho, referindo-se a Deus: “o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti”. O filósofo apercebia-se dos momentos de vida balizados por duas inquietações, pois toda a vida se processa, no seu entendimento, de inquietação em inquietação, até à meta final. Os psicólogos são mais terra-a-terra, como Wallon: também o desenvolvimento de uma criança se efectua mediante aquilo a que ele chama crises ou conflitos. A distância entre dois estados destes mede uma etapa do desenvolvimento. Erikson diz mesmo: “Cada passo sucessivo é uma crise potencial por ser uma mudança de perspectiva radical”. Desenvolvemo-nos assim no meio de conflitos e inquietações — da luta, que a actividade lúdica exemplifica.