O objectivo é apanhar o maior número de abelhas bravas (vespas).
Faz-se um pequeno buraco na terra e tapa-se com um vidro, mas não totalmente, de maneira que fique um pequeno orifício por onde as abelhas vão ser introduzidas. O objectivo do jogo é meter dentro as abelhas, no maior número possível.
Na ponta aguçada de um graveto as crianças espetam uma mosca que vai servir de isca para as vespas a procurar junto de estrumeiras ou à porta de estábulos. Atraída uma vespa, que pousa sobre a mosca, é logo conduzida até ao orifício do buraco, com o fim de a aprisionar, o que não é fácil, já que muitas vezes ela se escapa. Ao fim de algum tempo, todavia, é possível colocar sob o vidro um número razoável desses insectos, sucedendo que uma ou outra criança pode, entretanto, ter de fugir para casa a gritar com uma ferroada.
O jogo termina quando as crianças o decidirem. Por vezes constituem-se dois grupos que disputam entre si a melhor caçada.
Em alguns lugares diz-se, quando se procura a abelha brava:
Abelhinha, abelhinha,
toma lá a tua mosquinha.
E, quando se corre para o buraco:
Zurra, zurra,
pica na burra.
O autor faz esta recolha por sugestão de uma aluna sua e lembra-se de que, em criança, na sua aldeia, também participou, com umas ferroadazitas pelo meio, em caçadas desta natureza. Em geral, eram só os rapazes que entravam no jogo: as raparigas, mais tímidas, afastavam-se ou punham-se a ver de longe. E pensa agora que não era apenas o thanatos freudiano a acicatá-los, mas também a necessidade de afirmação pessoal numa empresa de certo modo arriscada, por imitação, em grande parte, dos adultos que se divertiam a pôr armadilhas aos coelhos, lobos e javalis. As raparigas, não só mais tímidas, mas também mais sensíveis, desinteressavam-se; os rapazes deliravam, assistindo com prazer à agonia das vespas, a debaterem-se sob o vidro até ao cansaço e à asfixia. Pensa também que, mesmo a não verificar-se a imitação dos mais velhos, este jogo ou outro semelhante seria inventado pelas crianças, como necessidade de domínio das forças adversas, em ordem à sobrevivência.
O aspecto pedagógico deste jogo, como o mau trato infligido a cães e gatos com saraivadas de pedras, é efectivamente nulo. O que os educadores não podem é fechar simplesmente os olhos ou, inversamente, tomar o caso como um acto de crueldade. Devem, sim, observar bem as tendências das crianças e orientar-lhes quer o sentido quer a energia para actividades socialmente desejáveis, sem esquecerem, porém, que os condicionamentos educativos não podem impedir a criança de ter um desenvolvimento tanto quanto possível autónomo, de realizar o exercício de si mesma. Se ela fornece ao adulto a resposta que o adulto espera, simplesmente, está a ser adaptada, integrada segundo um projecto que pode não ser o melhor. Quando um educador se convence de que tem na mão a chave da educação ideal deixa, por isso mesmo, de ser o educador ideal. Tal chave não existe e, numa educação correcta, tem de ser objecto de busca incessante.


