A Chega de Bois, quando organizada segundo a tradição, é o jogo que mais entusiasmo desperta na gente do Barroso. As aldeias jogam, através dos seus queridos e pitorescos representantes, que são os bois do povo, sentindo-se homens e mulheres impelidos por uma força que lhes vem do fundo do tempo e do sangue.
O boi do povo destina-se à cobertura das vacas e é principescamente tratado, de modo a apresentar-se forte e saudável. Vamos situar-nos, há cerca de quinze anos atrás, e ver como as coisas se passavam, já que de momento a tradição parece muito abalada.
Cada aldeia tem um ou mais bois de cobrição a cargo de um pastor que é pago pelo povo em alqueires de centeio. A remuneração é proporcional ao número de cabeças de gado de cada família. Além do pastor, há também um tratador especial, quando se avizinha uma chega. O boi é então objecto de cuidados excepcionais: anda-se pelas portas a pedir centeio, batatas e milho. Chega a dar-se-lhe cerveja e vinho com açúcar, a fim de ganhar mais ânimo.
A corte do boi é espaçosa e limpa. Algumas têm sino para chamar as pessoas para as reuniões. A de Travassos do Rio possui uma pequena torre com a cabeça de um boi esculpida na parede. O boi ganha assim foros de símbolo divinizado. Ele representa a força e a fecundidade da terra. “Um deus de cornos e testículos”, como diz Miguel Torga.
A chega entre bois de aldeias diferentes ou da mesma aldeia, se esta tem mais do que um, apraza-se com cerca de quinze dias a um mês de antecedência. É ao fim da missa dominical ou no forno público que o povo decide se vai haver chega ou não. No caso da afirmativa, começa então uma preparação cuidada, de que não estão ausentes os truques e os bruxedos. Vai-se ao ponto de tentar roubar o boi adversário, com o fito de organizar uma chega noctuma como teste. Na véspera do grande dia:
durante a noite, azougam-no ou colocam-lhe a pele de uma vaca ou vitela no lombo, para que ao cheirar ao inimigo este fuja de pasmo e medo. Entretanto, na missa lembra-se aos santos o pedido de vitória para o boi da nossa terra. Fazem-se promessas, orações, responsos e votos de ansiedade para que toda a corte do céu esteja do lado do nosso boi.
O azougue é um estratagema fatal. O cheiro a sangue e sexo pode levar o boi adversário a ficar confuso: em vez de turrar com o inimigo, avança-lhe por trás e foge. Tal estratagema, no entanto, é geralmente condenado.
Quando caminham com o seu boi para o campo de batalha, algumas pessoas “deitam sal em cruz nas ruas por causa da bruxaria ou mau olhado”, não levando o animal a atravessar uma corrente de água onde perderia o azougue (se o tiver) e a força.
Em pleno campo respeitam-se as regras seguintes: os bois entram pelas extremidades opostas e cada boi é acompanhado do respectivo pastor, não podendo estar mais do que um ou dois homens ao pé. A assistência fica de largo.
Logo que os pastores embicam os bois um para o outro, estes miram-se e investem. É a regra. Só raramente um deles foge à confrontação. O embate pela cabeça pode levar o mais pesado a fazer recuar o outro. Mas os golpes de chifre, a astúcia e a determinação também contam. O prélio pode demorar um minuto ou, geralmente no máximo, cerca de trinta. Um deles acaba por desistir, fugindo. O outro é o vencedor, imediatamente aplaudido pelos conterrâneos. Às vezes, os ânimos exaltam-se, devido a remoques ditos escarninhos. Pode haver zaragata, o que acontece cada vez menos. O etnógrafo Lourenço Fontes conta assim o fim da festa:
Chegado ao povoado, o boi (vencedor) vai em procissão dar a volta às ruas da aldeia, ovacionado por todos que dizem: abençoado boi e grão que comeste! Há festa com baile para todos e vinho à discrição pago pelos entusiastas e apostantes.
De momento, são já muito poucas as aldeias que têm o seu boi do povo. Razão: a falta de pastores, como nos dizem. As chegas são agora mais entre bois particulares que, embora desta ou daquela aldeia, não atraem tão espontaneamente como dantes a adesão apaixonada das populações. Há proprietários de bois que começam a ter na mira o lucro fácil que eles lhes podem dar, alugando-os para uma chega, dentro ou fora de Barroso. E, às vezes, submetem-nos a um tratamento desregrado. “Aqui há umas semanas – contaram-nos –, o boi de fulano foi para a chega, bêbado de todo.” Mudam-se os tempos, mudam-se os jogos também. A festa popular corre sempre o risco de dar origem ao exibicionismo, ao puro espectáculo e ao comércio.
Em Soutelinho da Raia, no dia 11 de Novembro de 1990, o boi Branco do Calbô deu espectáculo mais uma vez em luta com o do Lídio da Campina. O público aficionado, em número razoável, teve oportunidade de ver uma boa chega. O boi do Lídio, um charolês de raça, deu uma luta inesperada ao Branco que, no seu jeito característico, só conseguiu mandar embora o “pequeno” depois de onze minutos, durante os quais teve de aplicar toda a sua força e a sua habilidade rara de lidar. Por três vezes o atravessou, com aquela terrível galha direita, fez-lhe “o sinal da cruz”, sempre que o charolês se descuidava com recuos, e acabou por ganhar bem.
Uma chega de bois valentes que valeu bem a pena, no campo de futebol de Soutelinho. O Branco é um boi de eleição e, conforme se viu, ainda não será tão cedo que vai deixar de ser o campeão.
Registamos duas curiosidades:
Primeira, uma pega acompanhou a chega, saltitando à volta dos animais, e sem temer o muito público presente e os bois nas refregas mais violentas.
Segunda, a filha do António Pinto, de Vilar, que, como sabe, foi dono do Branco, acompanhou o “seu” boi sempre de perto. Entrou mesmo no campo, de pau na mão, toda feliz tocar o boizinho que o Pinto, seu pai, fizera campeão de Barroso.1
Notas
FONTES, António Lourenço – Etnografia transmontana. Montalegre : [s.n.]. p. 49 e 51. Uma boa descrição da chega de bois encontra-se em Planalto do gostofrio, romance de Bento da Cruz, e ainda nos textos do mesmo autor “O boi do povo” e “Chegas no Barroso”.
- António do Ruço, O Povo de Barroso, 16 de Novembro de 1990. ↩︎
