A mesma estrutura do Serrubico (2), mas a cantilena é a seguinte:
Chorro morro,
pico o forro
e a balança,
o quartilho.
Dá um pincho,
põe-te em França.
Sola sapata,
rei, rainha
põem o pé
na poupelinha.
E o rapaz
que jogo faz?
Sou capão,
sou capaz.
Manda a velha
recolher.
Qual é a que
se vai esconder?
Esta cantilena foi recolhida por Maria Goretti Silva em Monteiros (Vila Pouca de Aguiar) e merece um comentário.
Como já escrevemos, nos cantos do povo “são frequentes as estrofes em que a métrica dos versos é irregular. Mas isso não significa que no canto e na dança o ritmo não seja regular. O heteromorfismo da escrita é assim compensado pelo isomorfismo da execução1. No caso desta cantilena, os versos 7, 10, 12 e 18 têm cada um quatro sílabas métricas, enquanto os outros têm três. Parece que o ritmo é irregular, havendo heterometria; mas a entoação, que nas cantilenas e lengalengas é anterior à escrita, dota a composição de homometria. Os versos referidos têm assim a seguinte leitura: “sola sapata”, “na pouplinha“, “qjogo faz“, “svais conder“. Os ictos recaem nas sílabas em itálico. Mas a leitura pode também ser esta quanto aos versos 9/10, 11/12 e 17/18:
— põe(m) o pena
poupelinha.
— E o rapazque
jogo faz?
— Qual é (a) quese
vai ‘sconder?
Outra forma de entoação esclarece também a regularidade rítmica e vejamos isso no exemplo “sola sapata”, verso cuja entoação musical é exactamente de três sílabas métricas ou rítmicas, como se pode ver na transcrição musical:


ou:


O verso tem o valor de três colcheias na sequência: uma colcheia, duas semicolcheias, uma e meia semicolcheia e uma fusa2.
No plano semântico, as coisas complicam-se mais e não se encontra com facilidade uma explicação convincente para o ilogismo, pelo menos aparente, de certas passagens. Que significado têm os primeiros versos da cantilena? Logo no primeiro verso que significa “chorro morro”? Chorro entende-se ou pode entender-se como jorro, jacto de água. Que tem isso a ver com “morro”? Morro, como elevação de terreno ou morro do verbo morrer? No primeiro caso, tínhamos de concluir que o chorro vinha do morro; no segundo, que o chorro provoca a morte — havendo que considerar assim a existência de um processo elíptico: relação de lugar donde (vem do) e de causalidade (e por isso), respectivamente. Na cantilena há outras passagens obscuras como esta.
Uma explicação para as expressões ininteligíveis consiste em atribuir-lhes um carácter neumático, entendendo-se por neuma, como Leite de Vasconcelos faz, uma palavra meramente fónica. Assim sendo, a sequência “chorro morro”, tal como “pico o forro” e outras ficariam esvaziadas de significação objectiva, mas não nos parece correcto esse procedimento: os lexemas de uma lengalenga (já não dizemos os neumas propriamente ditos, por exemplo, olaré, que também exerce a função de conector) remetem para a realidade objectiva, noética, ainda que a sua estranha articulação tenha um carácter subjectivo ou patético. O problema está em descodificar o texto, o que no caso vertente é extremamente difícil, senão impossível, a não ser com o conhecimento da motivação original. Mas como chegar a esta? Como, através da rede de significações, descobrir a intenção das crianças de há duas ou três gerações, talvez mais?
Na maior parte dos casos, o melhor será guardar a magia das palavras, dar-lhes mesmo um valor polissémico e interpretar, sentir, cada uma a seu gosto. E fiquemo-nos por aqui, ao menos quanto a esta cantilena, para não correr o risco de um malabarismo hermenêutico.
Notas
- CABRAL, António – Cancioneiro popular duriense. Vila Real: Centro Cultural Regional, 1983 ↩︎
- Outra forma de entoação: ↩︎

