No Natal e na Semana Santa gostava o povo, e ainda gosta, que às comemorações litúrgicas oficiais se juntasse uma devota representação teatral alusiva ao momento sagrado. Em Trás-os -Montes, os locais preferidos eram as igrejas e as capelas, não só pela presença dos símbolos religiosos, mas também e sobretudo porque aí os participantes e os assistentes estavam a resguardo de possíveis inclemências do tempo, com maioria de razão no Natal. Os párocos, que viviam no meio das populações, iam compreendendo e tolerando esses jogos dramáticos. Que poderiam de resto fazer contra a vontade dos paroquianos, de quem dependiam afinal?
Os bispos, todavia, não viam esses espectáculos com bons olhos, tanto na região transmontana como no resto do país; e, quando aparecia um mais rijo de espírito, os espectáculos corriam o risco de proibição ou eram mesmo proibidos. Foi o que aconteceu, por exemplo, no território que estava sob a jurisdição canónica do décimo primeiro bispo de Bragança e Miranda, D. José Mariz; mas precisou de dezassete anos para banir as pastoradas e os autos da paixão das igrejas. Em 1888, avisou o arcipreste de Vimioso de que não admitia pastoradas e entremezes na noite de Natal, dentro das igrejas, mesmo que a seu favor “estivesse o costume de largos anos”. Em 1890, faz circular uma pastoral em que censura asperamente tanto as pastoradas ou ramos do Natal como os autos da paixão. Consegue a obediência nuns lados, mas noutros o teatro é mais forte.
Em Salsas era diferente. Na noite do Sábado de Aleluia, alguns indivíduos escalavam a igreja por meio de escadas, subiam ao telhado e repicavam os sinos estridulamente até de manhã. Desciam ao coro e ao pavimento e escancaravam as portas para que homens e mulheres entrassem livremente e sem respeito a dar as alvíssaras a Nossa Senhora.
Em 1894, foi encenado um calvário, em Vinhas, num morro próximo da aldeia; e em Mirandela o local escolhido foi a própria igreja. Os desacatos, no pensar do bispo, sucediam-se noutros lugares. A igreja de Vilartão é interditada em 1895, por ter sido palco de representações na noite de Natal. O povo revolta-se e intimida o pároco com ameaças de morte; tem de intervir o administrador de Valpaços. Uma provisão de 1895 “declara interditas todas as igrejas e capelas onde se façam pastoradas na noite de 24 para 25 de Dezembro, e os autos da paixão, morte e ressurreição do Redentor na semana santa, e suspenso ipso facto o pároco que concorrer, tolerar ou não puser obstáculos a tais representações. Nalguns sítios, porém, fizeram-se orelhas moucas. O último interdito atingiu a igreja de Frades, na freguesia de Edral, em 1905, por causa de uma pastorada. “Só desde então morreram em toda a diocese as pastoradas e os autos da paixão, representadas nas igrejas.”
“Não tem a Igreja por que se envergonhar do caráctel lúdico do seu culto – de muito do seu culto, pelo menos: a simbologia humaniza-o e torna-o atraente. Cristo também falava por parábolas e estas têm inquestionavelmente forma de jogo” – escreveu o autor no livro Teoria do jogo (texto “O Jogo como Festa”). Isto não põe em causa o direito de ser a própria Igreja a regular as actividades que são da sua iniciativa ou que são desenvolvidas no seu seio, salvaguardando, no entanto, o princípio de que é com senso e inteligência e não com autoritarismo que os problemas se resolvem.
Notas
Vid. P. José, De Castro, op. cit., pp. 132-134. Fora das igrejas, o teatro popular religioso manteve-se, com relevo para as terras de Miranda e Bragança. Na diocese de Vila Real, continuou vivo sobretudo no arciprestado de Chaves. Em Pegarinhos (Alijó), num espectáculo que durou seis horas e contou com dezenas de actores, representou-se pela última vez, em 1994 (16 de Abril), “A Criação do Mundo ou o Ramo”, obra inédita, mas apresentada e resumida pelo autor na revista Estudos transmontanos, n.º 4, Vila Real, 1990.
