É uma lengalenga das crianças de S. Lourenço (Sabrosa), há uns trinta anos. O carácter lúdico é não só o inerente à linguagem de referentes aleatórios, suscitados pelo embalo rítmico, mas também o do sermão burlesco: as crianças diziam esta cantilena de cima de um banco ou de umas escadas, em qualquer plano elevado, como se estivessem num púlpito.
O sermão de S. Coelho
‘stá c’um barrete vermelho,
c’uma espada de cortiça
para matar a carriça.
A carriça deu um berro:
toda a gente atormentou;
só uma velha ficou.
A velha pariu um rato
embrulhado num sapato
que foi entregar de presente
ao senhor padre Vicente,
que raspasse o cu c’um dente.
Torna-se necessário adoptar uma estratégia de interpretação literária, recorrendo, como Michel Grimaud, aos primeiros anos do desenvolvimento da criança. O ritmo e o símbolo nascem então. A criação literária é “fundamentalmente a elaboração de um proto-texto sensório-motor e pré-operatório”.