Por vezes, antes do jogo do Galo, lê-se o Testamento do Galo, conjunto de quadras que variam de aldeia para aldeia. As que a seguir se apresentam foram recolhidas em S. Lourenço (Sabrosa) de um caderno de versos populares organizado pelo Ti Sebastião Teixeira.
Não haverá quem me console
nesta minha triste sorte?
Esta noite se escreveu
a minha sentença de morte.
Em nome da benta hora,
acudam todos e venham ver
o que faz um pobre galo,
quando está para morrer.
Já que estou em meu juízo,
testamento quero fazer
para os meus bens deixar
a quem melhor me parecer.
Porém, antes que se escrevam
as cláusulas derradeiras,
quero também despedir-me
das amantes companheiras.
Galinhas, minhas amigas,
com quem sempre acompanhei,
vinde todas para ver
o estado a que eu cheguei.
Estou tão atribulado
nesta nossa despedida
que deixar-vos nesta hora
de certo me custa a vida.
Um conselho quero dar-vos
e vos falo bem sisudo:
que façais quanto puderdes
dos três dias do Entrudo.1
De mim pena não tenhais.
Aos mais galos dai ouvidos,
que assim fazem as mulheres
quando lhes morrem os maridos.
Em tudo quanto disser
tomai sentido e atento,
que eu principio agora
a fazer meu testameno.
Deixo a voz da garganta
aos galos mais companheiros
para que cantem de noite
em cima dos seus poleiros.
O meu delicado bico
deixo ao galo mais fraco
para quando andar à bulha
fazer mais um buraco.
Deixo a minha crista
vermelhinha e tão bela
ao gato mais lambareiro
que quiser ficar com ela.
Deixo as minhas barbas
vermelhinhas e tão belas
ao homem mais desbarbado
que quiser servir-se delas.
Deixo as penas do pescoço
de várias cores pintadas
às meninas desta terra
para andarem enfeitadas.
Deixo as penas do corpo,
por serem as mais honestas,
às beatinhas da moda
pra se enfeitarem nas festas.
Deixo as penas do rabo,
Por serem as mais brilhantes,
para as meninas solteiras
darem aos seus amantes.
Deixo as minhas pernas,
por serem de cor amarela,
para os cães que quiserem
darem uma atacadela.
Deixo mais as minha unhas
para as mulheres viúvas
se arranharem de noite
quando lhes morderem as pulgas.
O papo que toda a vida
me serviu de celeiro
deixo ao homem mais honrado
para a bolsa do dinheiro.
O fígado e a moela
e a minha vontade inteira
que os coma logo assados
quem for minha cozinheira.
Deixo o miolo das tripas
e toda a mais demasia2
à mulher mais rabugenta
que houver na freguesia.
Deixo e é minha vontade:
seja a minha sepultura
dentro dos corpos humanos
que é melhor que a terra dura.
Deixo que o meu enterro
se faça com todo o carinho.
O que hão-de gastar em ler
o gastem antes em vinho.
E vós, meus estudantinhos,
já que assim o quereis,
degolai-me bem depressa
que é favor que me fazeis.
Notas
- O dia em que mais se praticava o jogo do Galo era (é-o cada vez menos) o Domingo Gordo. ↩︎
- Eufemismo evidente. Há outros testamentos em que a linguagem é directa, mencionando-se mesmo os órgãos genitais do galo e nomes de pessoas da localidade. O etnógrafo Lourenço Fontes fez um breve estudo sobre o jogo do Galo na Península Ibérica que apresentou ao I Encontro de Escritores e Jornalistas de Trás-os-Montes e Alto Douro (Vila Real, 1981) e está publicado na revista Brigantia, vol. lI, n.º 1, 1982. ↩︎



