É uma tradição carnavalesca de Ervedosa do Douro que Virgínia Costa arquivou em caderno. Trata-se de costume que os tempos modernos quase fizeram desaparecer e que se assemelha às Comadres e Compadres do concelho de Lamego. De o Pai da Fartura respigamos as linhas centrais.
Em Ervedosa do Douro, ao longo do ano vão-se registando os casos mais pitorescos da vila. Pessoa inclinada a fazer versos dá-lhes, à porta do Carnaval, forma literária para as contradanças e para o testamento feito de legados e deixas.
Tudo se passa na Terça-Feira Gorda. De tarde, forma-se um cortejo atrás do Pai da Fartura – um boneco do tamanho de um homem, feito de paus, palha, roupa velha e uma máscara e hasteado por um folião. Nas ruas principais, o cortejo pára a fim de se proceder às contradanças, em que homem de boa voz entoa versos pícaros. Neles surgem devidamente açoitadas pessoas e ocorrências, sem que em princípio isso dê lugar a zangas e amuos.
Por volta de 1940, a estrada onde circulava a carreira entre a Meda e o Pinhão era muito fraca. O autocarro, como ela. Daí o cheganço:
Todos riem da carreira pepineira.
Isto assim não se atura.
Por ser reles é que dura
e acabar não há maneira.
Os ditos epigramáticos alvejavam frequentemente os borrachões, mas um dia toda a povoação teve de ouvir:
Qualquer tipo da Portela
agarra a sua piela.
Os da rua da Praça
também gostam da morraça.
Então os da Costa
nem um diz que não gosta.
Os da Fonte Nova
é só caixão à cova.
Os da Igreja, ah faneca!
apanham cada camoeca!
Os do Arrabalde
também não bebem debalde.
E os do Ribeiro acham
o vinho porreiro.
À noite, as pessoas concentram-se no largo principal, à volta de uma fogueira onde o Pai da Fartura é queimado com grande algazarra. Lê-se depois o seu testamento que vai apontado a malandrices e tropelias. Um dia, nem o padre da terra, que pelo visto não se cansava de pedinchar, escapou à sátira:
Deixo ao padre da freguesia,
por ser muito interesseiro,
um corno cheio de libras
pra não pedir mais dinheiro.
Exemplos de outros legados:
Também deixo a um moço
cujo nome é Gonçalo
para comer ao almoço
oitenta ovos de galo.
Às meninas que se derem,
julgando dote mer’cido,
aconselha-se a que esperem
por um, grande e retorcido.
À que for retardatária,
que do casamento fuja,
deixo a bicha solitária
mai-la sobredita cuja.
Em 1985, por acção da Junta de Freguesia, reviveu-se a tradição. Algumas quadras soltas, como as anteriores, da biografia do Pai da Fartura:
E quando a EDP
a electricidade subiu,
mandou pôr o contador
na puta que o pariu.
Quando veio o cobrador,
tomou esta decisão:
leve lá o contador,
que eu fico coa instalação.
Limpava o cu a uma pedra
(o caso não é pra rir)
e tornava-a a lavar
para tornar a servir.



