Início > Comadres e Compadres (Lalim)

Comadres e Compadres (Lalim)

Avatar de António Cabral
Créditos:

Em Lalim, concelho de Lamego, este jogo inicia-se na quarta semana que antecede o Carnaval e prolonga-se até este dia. A pri­meira semana é a das amigas: as raparigas juntam-se em qualquer lugar (rua, adro, loja, etc.) e falam das suas qualidades, de modo a que os rapazes as ouçam. A segunda semana é a dos amigos: os rapazes, onde quer que se encontrem, exaltam também as suas qua­lidades para que as raparigas tomem boa nota. Na terceira semana, a das comadres, passam as moças a falar mal dos rapazes, fazendo avultar os defeitos que lhes foram descobrindo, ao longo do ano. Na quarta semana, a dos compadres, os rapazes vingam-se e dão conhecimento dos defeitos encontrados nesta ou naquela moça.

Chega, finalmente, o Carnaval. Cada rapaz traz consigo uma amiga e cada rapariga um amigo. São pequenos bonecos que eles e elas fazem beijar-se, precatando-se de não serem surripiados. “Beija a tua amiga” – dizem elas. “Beija o teu amigo” – dizem eles. No encostar dos bonecos é preciso cuidado: o jovem que surripiar maior número de bonecos fica bem visto perante todos. Isto é o cos­tume da manhã de Carnaval. De tarde, procede-se ao testamento e enterro de comadres e compadres. O povo de Lalim vem para a rua. As raparigas trazem o compadre (boneco de arame, coberto de papel a imitar um rapaz) e os rapazes a comadre (boneco semelhante, mas com formas femininas). São lidos em voz alta os dois testa­mentos, em forma de quadras brejeiras. Uma das comadres:

Deixo ao menino Joaquim Mamas
o rabo da minha gata.
Pra arranjar uma rapariga
tem de usar uma gravata.

Outra do testamento dos compadres:

Deixo à menina Elisa
da comadre as orelhas.
Ela é um barril tão grande!
Parece um cortiço de abelhas.

Há quem fique contente e há quem core até à raiz dos cabelos. Chega a haver zangas, mas tudo passa, tem de passar.

No Carna­val ninguém leva a mal – diz o ditado. Feitos os testamentos, queimam-se comadre e compadre, em grande folia. Os restos mortais são enterrados, após desfile barulhento pelas ruas.

Em Dalvares chamam aos versos do testamento deixadas. Na aldeia de Alvações do Corgo (Penaguião) só os rapazes fazem a comadre; as raparigas, mais tímidas, limitam-se a encher papéis com versos humorísticos, dirigidos aos rapazes, indo depois afixá-los numa porta.

Notas

Uma recolha de Maria Cândida Sousa.

Sobre os Jogos Populares